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segunda-feira, 4 de maio de 2026

BRUTAL PARAÍSO é o retrato musical do crescimento desenfreado de uma cidade planejada

    
Ao Luísa Sonza enunciar mais uma brincadeira de antíteses, fomos amedrontados pela possibilidade de outro projeto incapaz de atingir o público médio. O uso de antinomias é compreensível para demonstrar a contradição do íntimo, mas seu relato é mixoscópico, não necessariamente dividido com o ouvinte. BRUTAL PARAÍSO se apresenta como um projeto grandioso que dobra a aposta de debater esses sentimentos borbulhantes, só que para não ser mais um jogo de ideias repetitivo e inalcançável, deve ser capaz de ilustrar esse embate sendo por si o objeto de ensaio em vez de solução para uma pergunta.  Essa tentativa foi bem-sucedida ou teremos de abrir uma enciclopédia musical sociopolítica para entendê-la?

    O álbum começa com DISTRÓPICO, com o objetivo de preparar o ouvinte para as muitas misturas propostas adiante, mais uma vez assumindo o trabalho de Sonza como mídia carente de explicação. Quando é proposta a maneira certa para ouvir algo, é retirada a existência da obra enquanto fenômeno vivo, capaz de expor uma ideia da artista que seja constantemente transformada pelo diálogo. Essa conversa cria longevidade à obra, porque a torna uma instituição social em vez de limitá-la por tempo de expiração, individualismo e demanda de reconhecimento ao que é cantado. Isso pune até mesmo a soberania da música seguinte ao criar um obstáculo para a sua significação. Fruto do Tempo deixa de ser um conector ao trabalho idealizado no projeto anterior de Luísa, Bossa Sempre Nova, no instante em que passa a ser introduzido por uma massa genérica.

    É especialmente trágico porque a seção bossa de BRUTAL PARAÍSO traz adições faltantes para consolidar o título Bossa Sempre Nova, que anunciou a bossa nova como um gênero de vanguarda contínua mostrada pelos mesmos lugares-comuns da nossa compreensão do som, em partes por ser um álbum de regravações (o que não deveria ser um impedimento, como pode ser visto nas regravações transformativas de Gilbertos Samba, por Gilberto Gil) e principalmente por se adequar exaustivamente à literalidade do gênero, enforcando as possibilidades de expansão da obra à contemporaneidade. Os adendos noventistas de electropop à bossa fazem parte da história de sua música (vide sambass, liquid dnb, sophisti-pop etc.), viabilizando a sensação de constância moderna à nossa percepção do gênero que casam com uma visão muito bonita desenvolvida neste álbum: a interpretação aos excessos, seja na moda, sejam nos sintetizadores, na organização musical…, de movimentos do design de consumo principalmente estruturados entre o fim dos anos 90 e primeira metade dos anos 2000. Ao atrelar essas múltiplas narrativas audiovisuais à acepção contemporânea, como quem veste peças do vestuário de um bazar sem se preocupar em fazer sentido para o ano em que foram compostas, o resultado mescla de forma singular o olhar novo à memória dessas identidades, tornando funcional sua análise por métricas atuais.

Capa do álbum. Fonte: Google LLC. Disponível em: https://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_meMAIpwLsrwaeQsMQdDV-QX40kkkl2NM0. Acesso em: 04 maio 2026.

    Ter seções muito próprias sem grande continuidade cria arranques nas mudanças de estilo, deixando bem claro o problema já situado em DISTRÓPICO. Na introdução, o som não se transforma, em vez disso canais são abruptamente mudados. Isso não impede a tentativa de fazer conectivos entre as músicas, porém o que temos são transições diegéticas do mundo imaginado no álbum, não entre as composições. Ao passar de uma música para a outra, o que pode ser ouvido é o som da cidade perdurando, que logo finaliza para entrar a próxima música. Se fosse incorporado pareceria intencional e sequer quebraria a possibilidade de tornar as músicas produtos individuais caso fossem isoladas para o lançamento de singles. A ideia de emendar as seções é boa, já a execução não, porque não agrega nem retira absolutamente nada de importante no trabalho e apenas coexiste como figurante em uma cena.

    Produções com a intenção de serem univitelinas, como megamixes e medleys, precisam de conversa constante entre as peças, não se limitando a um som de elo entre uma coisa ou outra. Da mesma forma, nem toda visualização contínua precisa ser agarrada para manter coesão, apenas precisa fazer sentido contextual ou técnico entre si. Essa conversa toda só aparece neste texto porque nada é feito com clareza, retirando o espectador da continuidade estilística do projeto por não ter, de fato, conexão entre as composições. O calcanhar de Aquiles de BRUTAL PARAÍSO está no todo e não nas minúcias, uma vez que há músicas legais mesmo nos momentos de previsibilidade que tentam facilitar a leitura das ideias grandiosas propostas. No cenário em que vivemos não há resistência a experimentos na música popular, fazendo com que ao se aderir a clichês para tornar permissível o produto ao público seja transmitida a mensagem de arrogância à capacidade interpretativa de seu ouvinte. Esse pensamento deveria assombrar não a nós espectadores, mas à equipe por trás do álbum, pois falta edição. Se foi questionada a coerência entre as músicas, talvez seja porque precisa de recortes; a letra pareceu besta? Guilhotina; nem toda participação agrega… Tal lógica é particularmente pulsante para um projeto comercial, ainda que repleto de autorialidade, porque a obra vai ter de ser lapidada para cada apresentação, cada parceria, cada produto que venha a ser elaborado, e quando isso cai nas mãos de um álbum de figurinhas gigantesco, que sequer tem uma proposta técnica ou estilística que envelope seu tamanho, não há cabimento para se estender por toda a vida.

    Muitas das músicas têm temas idênticos e navegam exclusivamente em torno de alguma interpolação. É um festim que facilmente poderia ser descartado ou mixado com outras faixas. Se esse murmúrio fosse feito no primeiro álbum da cantora, com plausível amadorismo na indústria fonográfica, tudo isso poderia ser relevado. À medida que o disco roda, o polimento elogiado nas faixas começa a se transformar em pastiche e repetição, o que tinge diretamente a identidade de Sonza. Se vemos também o álbum como um investimento composto por gastos da produção, feito para valorizar, o acúmulo sem formatação rouba a exclusividade de sua apreciação. É mais, mais, mais e mais, sem nenhum luxo distinto de explorar os sons da obra, a assinatura nas letras ou quaisquer experimentos que apareçam. O que é escolhido como single faz do restante passível de descarte e o que coexiste sem reciprocidade sonora passa a ser percebido como desintencional.


    E quando o álbum já estava abatido pelo cansaço, é com o funk que volta a dar sinais de vida. Sua passagem pelo gênero é elegantérrima. O holofote de toda experiência está na música que deu início ao ciclo promocional, Telefone, que soube demonstrar com êxito as colagens e aperfeiçoamentos propostos em BRUTAL PARAÍSO, casando-se à imagem pública da cantora sem cair em aforismos linguísticos caricatos. O fluxo caótico com bipes e ruídos é lindamente urbano, pois soa como o trânsito frenético de uma metrópole. A música é, acima de tudo refinada, em que justamente por ser do tamanho de um jingle dá o respiro necessário para ser fidelizada. Por ser curta não cai em maneirismos e sequer torna condescendente a tentativa de “honrar” o funk pela adição orquestral. Ela conversa por conta própria e consegue mostrar uma maturação do tom de canto de Sonza, ainda que indistinguível diante da profusão sonora ao fundo.

    BRUTAL PARAÍSO é feito de ótimas intenções e ótimas execuções individuais, perdido pela forma como foi entregue o conjunto da obra. Em inúmeros momentos você imagina “essa seria uma incrível música para terminar” e daí vem outra, outra e mais outra sem significância, com cara de canção que toca em barzinho noturno com música ao vivo, que tem apenas interesse transitório. Se a alegoria era a de uma região metropolitana, o álbum carrega muitas cidades-dormitório. Essa sensação não é elegante, é apenas funcional. A arte é de ser exploratória, perceptiva, não só utilitária, e talvez seja essa a conversa a se expandir num próximo projeto.

BRUTAL PARAÍSO (2026) - Luísa Sonza | Sony Music Entertainment Brasil LTDA., Luísa Sonza & Cia.
prós.: com produções estilosas, consegue mostrar a projeção vocal e estilística da cantora.
cons.: o conjunto fatiga por compactar muito material desnecessário ou mal incorporado.
★★☆☆☆ 2/5
👎

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