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terça-feira, 11 de agosto de 2026

O grande trunfo de <Hyper-Ego> é chamar de experimental o que está em moda no kpop

Colagem ruidosa desenvolvida a partir de recortes do videoclipe alternativo da música Born Stunner do grupo de kpop ARTMS. Na composição, as integrantes são superpostas para se tornarem uma única entidade de entalhes colorida por tons de rosa, preto, vermelho, amarelo e azul, com trechos de texto e ornamentos emoldurando a cena.
Requerendo a vivência do estranho em vez de sua remediação, <Hyper-Ego faz da música plano-de-fundo na identificação de signos e narrativas de ARTMS, continuando o legado de LOONA de se alocar no léxico cultural e construir uma comunidade apoiada pela semiótica e diegese através de memes, frases de efeito e senso de justiça. O aguardado retorno do grupo dilui conceitos extravagantes na superficialidade de um pop hedonista, que involuntariamente retorna à massa gritante de admiradores da internet uma crítica sobre a própria identidade: confundindo foco promocional com más escolhas criativas, a preocupação do público se metamorfoseou em um autofágico pânico generalizado?

Os ritmos dançantes frenéticos desviam a atenção de que <Hyper-Ego é até então o lançamento de ARTMS mais literal à atualidade do kpop, que rodeia vertiginosamente sob o Zeitgeist juvenil da primeira década dos anos 2000 e suas conversas modulares de invenção cibernética, em que experimentações antes desenvolvida nas ruas por nichos com moda baseada em pastiches das figuras de sucesso da tevê e cinema foram trocadas por conexões dentro de casa em fóruns, chats e blogs, descaracterizadas de uma unidade local para uma rebeldia sem centralização geográfica, estilística, econômica ou etária em movimentos como o bloghouse e indie sleaze que sedimentam o linguajar estético reavivado pela cena musical sul-coreana dos últimos cinco anos. Muitos dos riscos tomados pelo lançamento estão concentrados na visualidade do que propriamente no som, embora ambos sejam continuações efetivas dos destrinchamentos temáticos propostos em <Club Icarus, que por conta própria se apresentou como um teste das ideias do grupo a uma competitividade doméstica. Essa proposta é bem resolvida logo no primeiro dos singles de <Hyper-Ego, Born Stunner, que existe num mesmo mundo musical que Gnarly ou todas as suas subsequentes iterações, valendo-se de mesma fluidez ostentatória ao passo que se preocupa em ser menos referencial, mas musicalmente amaciado para a coerência interna do EP, cujo formato mercadologicamente tangível do kpop sanitiza os excessos experimentais dos gêneros rápidos advindos do breakbeat, trap e DnB para a funcionalidade de suas performances e se faz averso ao ao espectador até então isolado por um discurso de superioridade artística.

Desde o anúncio de <Hyper-Ego, o corpo quilópode de fãs do ARTMS se aproximou com tochas e forquilhas para questionar o compromisso da MODHAUS com o lançamento, trazendo pontos pertinentes acerca da ausência da integrante HaSeul no circuito de desenvolvimento e publicidade do EP ou perdendo completamente a mão entre acusações achincalhadas quanto a ética, técnica e qualidade da produção. O descrédito do lançamento é um tanto precoce, ao que grande parte da discussão parece girar em torno do descontentamento pelo som e divulgação estarem mais próximos do kpop, ainda que isso não represente decaída do atrativo da produção ou da narrativa de ARTMS. Nenhuma grande análise mercadológica é possível de ser feita a curto prazo, especialmente partindo do público que tem pouco acesso à situação factível da empresa e do aparato institucional da música sul-coreana. Esse tipo de visão é requerente de uma resposta do futuro, de sucesso comercial ou resistência midiática, que não deveria ser uma preocupação pelos espectadores. No geral, o único discernimento plausível de ser feito é que <Hyper-Ego, MODHAUS e sua equipe criativa são movimentadores da discussão ao redor de ARTMS e muito competentes nisso, uma vez que a crítica compulsória é em si pertencente ao fenômeno dialético irradiado pelo grupo.


<Hyper-Ego> (2026) - ARTMS | MODHAUS
prós.: segue com clareza os princípios audiovisuais de ARTMS e traz grande valor prático ao ceder etapas da produção a fim de garantir a repetibilidade de sua interpretação.
cons.: na válida insatisfação à neutralização dos gêneros explorados no lançamento, o grupo desce do pedestal conceitual criado pelos fãs para a realidade de sua produção: kpop, por suas fórmulas, tendências e necessidades.
★★★☆☆ 3/5
👍👎

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