Requerendo a vivência do estranho em vez de sua remediação, <Hyper-Ego> faz da música plano-de-fundo na identificação de signos e narrativas de ARTMS, continuando o legado de LOONA de se alocar no léxico cultural e construir uma comunidade apoiada pela semiótica e diegese através de memes, frases de efeito e senso de justiça. O aguardado retorno do grupo dilui conceitos extravagantes na superficialidade de um pop hedonista, que involuntariamente retorna à massa gritante de admiradores da internet uma crítica sobre a própria identidade: confundindo foco promocional com más escolhas criativas, a preocupação do público se metamorfoseou em um autofágico pânico generalizado?
Os ritmos dançantes frenéticos desviam a atenção de que <Hyper-Ego> é até então o lançamento de ARTMS mais literal à atualidade do kpop, que rodeia vertiginosamente sob o Zeitgeist juvenil da primeira década dos anos 2000 e suas conversas modulares de invenção cibernética, em que experimentações antes desenvolvida nas ruas por nichos com moda baseada em pastiches das figuras de sucesso da tevê e cinema foram trocadas por conexões dentro de casa em fóruns, chats e blogs, descaracterizadas de uma unidade local para uma rebeldia sem centralização geográfica, estilística, econômica ou etária em movimentos como o bloghouse e indie sleaze que sedimentam o linguajar estético reavivado pela cena musical sul-coreana dos últimos cinco anos. Muitos dos riscos tomados pelo lançamento estão concentrados na visualidade do que propriamente no som, embora ambos sejam continuações efetivas dos destrinchamentos temáticos propostos em <Club Icarus>, que por conta própria se apresentou como um teste das ideias do grupo a uma competitividade doméstica. Essa proposta é bem resolvida logo no primeiro dos singles de <Hyper-Ego>, Born Stunner, que existe num mesmo mundo musical que Gnarly ou todas as suas subsequentes iterações, valendo-se de mesma fluidez ostentatória ao passo que se preocupa em ser menos referencial, mas musicalmente amaciado para a coerência interna do EP, cujo formato mercadologicamente tangível do kpop sanitiza os excessos experimentais dos gêneros rápidos advindos do breakbeat, trap e DnB para a funcionalidade de suas performances e se faz averso ao ao espectador até então isolado por um discurso de superioridade artística.
Desde o anúncio de <Hyper-Ego>, o corpo quilópode de fãs do ARTMS se aproximou com tochas e forquilhas para questionar o compromisso da MODHAUS com o lançamento, trazendo pontos pertinentes acerca da ausência da integrante HaSeul no circuito de desenvolvimento e publicidade do EP ou perdendo completamente a mão entre acusações achincalhadas quanto a ética, técnica e qualidade da produção. O descrédito do lançamento é um tanto precoce, ao que grande parte da discussão parece girar em torno do descontentamento pelo som e divulgação estarem mais próximos do kpop, ainda que isso não represente decaída do atrativo da produção ou da narrativa de ARTMS. Nenhuma grande análise mercadológica é possível de ser feita a curto prazo, especialmente partindo do público que tem pouco acesso à situação factível da empresa e do aparato institucional da música sul-coreana. Esse tipo de visão é requerente de uma resposta do futuro, de sucesso comercial ou resistência midiática, que não deveria ser uma preocupação pelos espectadores. No geral, o único discernimento plausível de ser feito é que <Hyper-Ego>, MODHAUS e sua equipe criativa são movimentadores da discussão ao redor de ARTMS e muito competentes nisso, uma vez que a crítica compulsória é em si pertencente ao fenômeno dialético irradiado pelo grupo.
<Hyper-Ego> (2026) - ARTMS | MODHAUS
prós.: segue com clareza os princípios audiovisuais de ARTMS e traz grande valor prático ao ceder etapas da produção a fim de garantir a repetibilidade de sua interpretação.
cons.: na válida insatisfação à neutralização dos gêneros explorados no lançamento, o grupo desce do pedestal conceitual criado pelos fãs para a realidade de sua produção: kpop, por suas fórmulas, tendências e necessidades.★★★☆☆ 3/5
👍👎

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