Como Ícaro para o sol, TiNG TiNG se aproxima demais de referências da eletrônica europeia. Se o diferencial de UNCHILD é o pop rock, valeu a pena a mudança de estilo? – G02MP
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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Como Ícaro para o sol, TiNG TiNG se aproxima demais de referências da eletrônica europeia. Se o diferencial de UNCHILD é o pop rock, valeu a pena a mudança de estilo?

Composição ruidosa em colagem digital juntando cenas do videoclipe de TiNG TiNG do grupo feminino de kpop UNCHILD. Mesclando texturas e  recortes pouco decifráveis, as integrantes do grupo formam tanto o cenário quanto o plano principal da cena numa massa colorida de efeitos e cores entre o cinza, amarelo, azul, rosa, vermelho, preto e branco. A imagem é editada usando uma simulação de pixel sorting e formas de gradação por matização, criando volumes de ruído que sobrepõem a composição.
    A estreia de UNCHILD trouxe a significante missão de mostrar a potência criativa da High Up Entertainment com uma nova marca, em que, evidenciada pela escolha do pop rock, cena que tende a ser evitada por atrair uma audiência apegada à fidelidade ao estilo, tornou como preocupação para o segundo lançamento o alinhar das possibilidades de expansão estética e promocional do grupo sem se afastar das tendências do mercado ou descoordenar o público alcançado no debut. TiNG TiNG, single originalmente previsto para setembro, surpreende por fazer uma leitura inusitada de seu foco sonoro, deixando o pop rock como base para intervenções da eletrônica europeia convidativa ao uso de instrumentações do funk rock e disco em modernizações estruturais radicadas nas experimentações tecnológicas de movimentos culturais cibernéticos.

    Na faixa-título homônima TiNG TiNG, o pop rock passa a ser o mecanismo para introduzir a eletrônica como protagonista da canção num formato pastiche sensibilizado pela dificuldade de assumir o quanto a referência, a interpolação e o pioneirismo dos gêneros musicais envolvidos ocupam a produção na falta de transparência dos comunicados de imprensa sobre o processo de criação do single. TiNG TiNG traz uma interpretação expressiva de D.A.N.C.E. do dueto francês Justice, suficientemente elaborada para apresentar originalidade, embora demasiadamente direcionado por sua influência, o que organiza, junto ao mesmo fator alusivo em TRICKY GRLS, amparar os desvios estéticos do lançamento na cognoscibilidade de samples e motivos melódicos.

Capa do single TiNG TiNG, de UNCHILD, feita por uma fotografia de alto-contraste e tons de azul pós-produzida a fim de desenvolver um estilo de ficção científica para a composição. Na imagem, as integrantes do grupo reúnem no centro sobre um campo esportivo gramado coberto por uma espécie de gosma. Abaixo delas, à esquerda da imagem, há o símbolo de um sapo fantasmagórico. Sobre esta figura elas se arranjam próximas em poses, vestindo uniformes estilizados prata e carregando armamentos de brinquedo que são editados com brilho e eletrochoques, referenciando os apetrechos absurdos do filme Os Caça-Fantasmas.
Capa do single. Fonte: NHN Bugs Corp. Disponível em: https://music.bugs.co.kr/album/4157421. Acesso em: 06 nov. 2026.

    Esse tipo de ampliação sonora com familiaridade nas transformações equilibra manter a integridade geral da marca necessária em seu início com a proteção identitária do grupo dentro das assinaturas criativas da High Up Entertainment. A linha turva dessa intenção é o quanto está sendo feito para desenvolver UNCHILD e o quanto é para safar a comunicação entre a companhia e seus investidores, trazendo gravidade à impressão da falta de definição da discografia do projeto. Todavia, se em ENERGY, música que acompanha o debut, há a proposta de mediar as visões de rebeldia juvenil intituladas pelo nome UNCHILD com gêneros da eletrônica de cenas da contracultura como o nu-disco e o ballroom, é nessa mesma esfera de conectividade que habita a esperteza proposta por TiNG TiNG. Sob influência da house francesa e da funktronica, o lançamento imagina composições contemporâneas que mantêm a conversa estilística sobre um som característico da indústria sul-coreana com associações de ritmos em que são explorados refrões e ganchos inventivos, historicamente relacionados ao pop, ao rock e à eletrônica, dentro de dinâmicas musicais clássicas estruturadas de forma a não exigir do público-alvo a suspensão da descrença conceitual sobre suas experimentações enquanto deixa clara a continuidade das decisões editoriais do grupo.

    Apesar da preocupação justificável de assimilar desde cedo um estilo característico a UNCHILD, TiNG TiNG acerta em suas estratégias musicais mirabolantes ao passo que escorrega nas contextualidades, seja o adiamento, a vagueza da ficha técnica ou da promoção do lançamento, que não suprem a acomodação imposta pelas mudanças no som. Mesmo parecendo um salto muito alto para ser acatado como uma extensão da estreia do grupo, High Up Entertainment segue trazendo mobilidade artística e referencial aos projetos da empresa, deixando-os conceitualmente longevos em harmonia com a recreação que a música pop dançante oferece.


TiNG TiNG (2026) - UNCHILD | High Up Entertainment sob licença de Kakao Entertainment
prós.: o excelente trabalho de decupagem de ritmos e referências acresce a discussão estética de UNCHILD, que estabelece singularidade em sequer um ano de fundação.
cons.: o pastiche e as condições exteriores ao single o demarcam com modelações distantes da sonoridade do debut, ofuscando a leitura de sua continuidade diretorial.

Veja mais: High Up Entertainment, pop rock electropop, kpop.

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