Billlie segue à risca sua fórmula de intrigar o público cativo em mistérios lúdicos com o rocambolesco the collective soul and unconcious: chapter two, primeiro álbum depois de quase cinco anos desde a estreia do grupo. Com o foco de sobreviver uma labuta de cada vez, o lançamento se agarra ao gosto popular do mercado coreano para se pôr à prova da disputa comercial, mas acaba se enrolando pelos próprios atalhos criativos tomados.
Apresentado como continuação do episódio musical de 2022 marcado pelo minuto de sucesso do grupo com a popularização da integrante Tsuki, o álbum conversa a curiosa dicotomia de se agarrar aos clichês musicais bem recebidos nas rádios coreanas (pontuados pelo dance-pop característico de artistas como Tinashe e PinkPantheress) e se manter fiel aos fãs sedimentados pelas narrativas audiovisuais impressas no projeto. A escolha de (…) chapter two para dar nome ao lançamento é indiscutivelmente questionável quando avaliado a grosso modo, entretanto se qualifica internamente para atender seu público-alvo. Essa estratégia é principalmente esperta num cenário em que a empresa não pode apostar todas as suas fichas na brevidade de sucessos passados e sequer terá briga justa com restante da indústria, porém não deve autoproclamar derrota porque foram esses espaços de alívio e adaptação que mantiveram o grupo preservado. Ao assumir vigas de segurança criativa, é criado um álbum que mascara a curta vida útil sonora pela qualidade e continuidade diegética entregues, fazendo do sucesso de manter unidade coesiva o reflexo da capacidade de adaptação de sua equipe criativa.
A introdução do projeto para o mundo passou instantaneamente do atraente para o repugnante com o comunicado de imprensa de uso (originalmente favorável numa declaração verborrágica do CEO da MYSTIC STORY, Jungsu Han e revisto de maneira interna em controle de danos) de sistemas de criação de imagem por Inteligência Artificial (IA) generativa para a construção do videoclipe de $ECRET no more. Abaixo segue um pequeno comentário sobre a situação, destacando que, para além do critério individual de cada leitor sobre o uso de sistemas de larga escala de IA, um ponto deve ser irrefutavelmente averso e descrito: a situação diz respeito a plágio, com o curta-metragem de animação NICCOLO o principal usurpado em ideia e composição artística.
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| Capa do álbum. Fonte: MYSTIC STORY. Disponível em: http://www.mysticstory.net/archive/2504. Acesso em: 04 jun. 2026. |
A decisão é particularmente estúpida porque vai em choque à idoneidade pública, procedural, de toda a instituição criativa Billlie sob MYSTIC STORY e relacionados, que apresenta o grupo (e deve-se ficar bem claro: essa é uma crítica ao desenvolvimento, aos instrumentos utilizados e, em certo grau, à estrutura sistemática que permite e valoriza esses processos técnicos) como uma alternativa artisticamente curiosa, de narrativa e escolhas estéticas muito precisas em conceito internamente desenvolvido. Não somente, a emergência da discussão pública de poder e percepção de sistemas de larga escala de IA é extremamente noviça e carente de certeza hermenêutica. Na parte acadêmica (e isso atendo à discussão de maneira rasa, com interesse pertinente), ainda é requerida formulação basal para o debate sociotécnico da IA que não se perca em falácias antropomórficas e possa epistemologicamente ser transportado para o campo da fenomenologia artística, enquanto no bate-papo cotidiano nem mesmo com solidez são distinguidas as nomenclaturas dos campos de design de IA, porque sequer separamos a IA de outras formas de sistemas de geração procedural, ou como o campo de computação gráfica, dos efeitos à edição e exportação desses recursos audiovisuais atravessa diferentes e imensamente complexos sistemas tecnológicos. Ainda dentro disso há oceanos de diferença do impacto ético e material sobre o tipo e quantidade de informação para o treino desses sistemas, a necessidade energética, a função e tamanho desses instrumentos como um todo, que vai além da síntese do termo Inteligência Artificial. De todo modo devemos assumir falsa modéstia ao nos espantarmos com um ou outro evento disperso na indústria musical sul-coreana, vocativo de uma visão ultratecnológica fetichista de economia expansionista movida pelo lucro e sucateamento laboral asséptico aos olhos do povo. Independentemente, nada disso pode ser suportado como uma concessão, porque mesmo nos casos de instrumentação o limiar entre uso, a ética e o sucateamento do labor por intermédio tecnológico é suficientemente difuso para ser disruptivo a toda a esfera ao qual a produção é apresentada. Foi-se usado para substituir o processo artístico (de agências criativas e seus signos particulares) para entregar simulacro.
Selado isso, num ponto de vista criativo, the collective soul and unconcious: chapter two lapida os espaços sonoros já conhecidos através de uma estrutura peculiar para manter seu apelo de novidade, o que é especialmente cômico na perspectiva de que o som importado no kpop é por si só atrasado e plastificado ao ponto de nova significação e retorno aos cenários em que foram originados. O grande mérito do álbum está na organização de suas faixas, que apesar de parecer um EP acompanhado por uma seleção de remixes, não cai na estranheza do que proclama ser, permitido pela admissão geral de álbuns muito curtos que giram em torno de seus singles numa média de trinta minutos, e a inserção de modificações, remixagens e edições serem partes cruciais da produção, intencionalmente dividindo o clima sonoro em duas seções muito próprias mas compartilhadas de conversação estilística, ao ponto que os quatro remixes inclusos, com três de faixas deste próprio disco, ampliam a experiência do espectador em tom, velocidade e assinatura às suas visões originais.
the collective soul and unconcious: chapter two (2026) - Billlie | MYSTIC STORY sob licença de Dreamusprós.: recheado de divertidas cacofonias e exímia finesse musical, o álbum entrega uma breve experiência prazerosa para seus ouvintes..
cons.: atingido por “fogo amigo”, as escolhas criativas controversas da empresa dificultam a apreciação do lançamento, criando uma justificada muralha midiática ao suporte e elogio de suas qualidades.★★★☆☆ 3/5
👍👎
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