aespa consolidou-se na mídia sem criar mistérios aos seus ouvintes, com os poucos riscos tomados pelo grupo estarem em lançamentos competentes individualmente vitoriosos. Qualidade não é a preocupação e LEMONADE faz jus a este repertório através de uma síntese bem formulada da carreira, mantendo os acertos enquanto torna coerente os dessabores anteriores ao encapsulá-los num projeto maior. LEMONADE é um álbum plástico feito a moldes de silicone e isto é naturalizado por termos bem construída a consciência global da marca aespa e seu comentário sobre visões de futuro entre poéticas do movimento mod, retrofuturismo e novo milênio. Tudo é muito bem produzido, permitindo nos gastarmos nos pontos desinteressantes do lançamento, que não intendem a enunciar grandes debates ou destacar pessoalidades das integrantes e sua equipe criativa para serem debitados em impressão negativa sobre o disco. O melhor a se fazer, e aqui é muito bem-feito, é tratar a obra de maneira analítica e intransferível, como uma espécie de escultura exibida dentro de um cubo de vidro blindado, advento de uma indústria amplamente visível e repercutida no cenário mundial, que é passível de intervenções grotescas ao abrir qualquer contato íntimo que se estanca em julgamentos desbalanceados.
Essa definição fica muito clara pela abertura com WDA (Whole Different Animal), que comporta a crítica ao público de forma não combativa ao seu destinatário, tendo para sua efetividade a alienação causada na produção musical, muito bem assinada pelos estilos de Dem Jointz e Ryan S. Jhun, que compõem o sentimento de dissociação (e pacificam a violência da reprimenda) pela sensação de ter uma canção ainda está em fase de construção, capaz de isolar o ouvinte ao mesmo tempo que o direciona a projetar a crítica para alguém exterior a si. Os dois produtores já exploraram anteriormente esse tipo de composição de maneira muito mais direta em Step Back (do grupo heterogêneo GOT the beat), no que justo por destacar o descontrole via letra e instrumental trouxe desafeto à discussão midiática do projeto. É importante expressar que desde MY WORLD os maniqueísmos estéticos de aespa não foram mecanicamente alimentados ao público. Propostas conceituais arriscadas tendem a ser constantemente explicadas à procura de aceitação. Enquanto deveríamos sair gritando “não condescenda o espectador!”, a verdade é que o distanciamento do receptor à mensagem é necessária para possibilitar o amadurecimento de experimentações transversais (que se estendem para além da música ou do videoclipe).
O disco é liderado por dois singles de muita força, encavalados sem nenhum respiro nas suas primeiras músicas (e uma reprise pouco deliciada no final). Curiosamente, essa é uma das poucas vezes em que um álbum de kpop parece requerente de ter sua faixa-título como introdução ao restante do corpo da obra, repetindo a premissa de resumo discográfico de aespa. LEMONADE continua o som apropriado em Whiplash, um tech house bem polido, no qual a desconstrução da música club e dance eletrônicas beira ao higiênico requerente para se fazer palatável para as rádios, embora não animize o resultado ao ponto de torná-lo irônico ao contexto histórico que o ocupa. Tal proporção é particularmente equilibrada ao analisarmos quão bem trabalhadas são as referências que qualificam a música, facilmente reconhecíveis ainda que não sejam diretamente enunciadas (por um sintetizador ou coreografia específica). Isso se vale do timing e do caráter homenageador da incorporação dessas referências no som, que não estão puramente atreladas a uma tendência momentânea e efêmera, estando presentes ao longo de todo o projeto. Em específico, podemos apontar os diálogos entre a música de aespa e gêneros feito bubblegum bass e electropop, diretamente associados ao selo e cena musical PC Music, hoje abarcados no termo guarda-chuva hyperpop.
Seja no nome (que pode ser conectado a dos experimento em PRODUCT, de SOPHIE) à caracterização visual do cibernético e da revisão nostálgica, essa associação é bem-vinda por acontecer contextualmente em suas visões contemporâneas de vanguarda, que continuam soando como o futuro porque não conseguiram ser assimiladas e cansadas o suficiente pela mecânica comercial. Adicionalmente, a lapidação sofrida por movimentos de contracultura impedem que essas instalações sejam feitas como cópia ou simulacro, apenas referência. Diante disso, as outras criações do álbum soam menos elaboradas do que o single que o nomeia mesmo não sendo piores, e é isso que tramita o porquê de não dar um peso maior, negativo, à intenção recapituladora de seu som. Não é oferecida grandiosidade normalmente experienciadas nas elaborações mais encorpadas de um LP, em que os microcosmos apresentados pelos singles e EPs individuais são elevados por riscos experimentais maiores e mais intensos associados ao valor comercial do lançamento. Talvez essa interpretação seja ainda mais fortalecida pela escolha de anunciar uma participação especial na música título que é escondida no lançamento oficial.
É uma pena a versão com Becky G não ser uma espécie de remix formulada como algo diferente e complementar ao single publicado. Isso talvez ampliasse a vida cultural do álbum como um todo e demarcasse o propósito da escolha da artista. Embora a canção se sustente sem o feat., Becky é incorporada de forma muito espontânea na música e abriga com sua presença a conversação de ser parte da juventude global reverberada e referenciada pelo som do álbum. É sobretudo uma pena como reconstruções e mixagens tendem a ser vistas como objetos bônus no kpop, valendo-se exclusivamente do repertório de singles e versões estendidas, assumindo demérito existencial. LEMONADE (feat. Becky G), os acréscimos irrelevantes (instrumental, mais rápido, mais lento), ou a participação de Ty Dolla $ign no recheio do disco passam a significar um segundo plano de importância incapaz de conversar com a própria construção que a introduz, porque num grande geral, LEMONADE reflete o catálogo da empresa sem subir degraus suficientes para ser um momento estupefato aos seus ouvintes, melhor espaçado em tema e com escolhas melhor propositadas, por pouco não anestesiando o valor total da obra.
Quem sabe por isso o nome faça justiça à peça: de poucos ingredientes, sem nenhum exagero, a limonada não é o drinque mais ostentável do cardápio, porém é suficiente para matar a sede.
Essa definição fica muito clara pela abertura com WDA (Whole Different Animal), que comporta a crítica ao público de forma não combativa ao seu destinatário, tendo para sua efetividade a alienação causada na produção musical, muito bem assinada pelos estilos de Dem Jointz e Ryan S. Jhun, que compõem o sentimento de dissociação (e pacificam a violência da reprimenda) pela sensação de ter uma canção ainda está em fase de construção, capaz de isolar o ouvinte ao mesmo tempo que o direciona a projetar a crítica para alguém exterior a si. Os dois produtores já exploraram anteriormente esse tipo de composição de maneira muito mais direta em Step Back (do grupo heterogêneo GOT the beat), no que justo por destacar o descontrole via letra e instrumental trouxe desafeto à discussão midiática do projeto. É importante expressar que desde MY WORLD os maniqueísmos estéticos de aespa não foram mecanicamente alimentados ao público. Propostas conceituais arriscadas tendem a ser constantemente explicadas à procura de aceitação. Enquanto deveríamos sair gritando “não condescenda o espectador!”, a verdade é que o distanciamento do receptor à mensagem é necessária para possibilitar o amadurecimento de experimentações transversais (que se estendem para além da música ou do videoclipe).
O disco é liderado por dois singles de muita força, encavalados sem nenhum respiro nas suas primeiras músicas (e uma reprise pouco deliciada no final). Curiosamente, essa é uma das poucas vezes em que um álbum de kpop parece requerente de ter sua faixa-título como introdução ao restante do corpo da obra, repetindo a premissa de resumo discográfico de aespa. LEMONADE continua o som apropriado em Whiplash, um tech house bem polido, no qual a desconstrução da música club e dance eletrônicas beira ao higiênico requerente para se fazer palatável para as rádios, embora não animize o resultado ao ponto de torná-lo irônico ao contexto histórico que o ocupa. Tal proporção é particularmente equilibrada ao analisarmos quão bem trabalhadas são as referências que qualificam a música, facilmente reconhecíveis ainda que não sejam diretamente enunciadas (por um sintetizador ou coreografia específica). Isso se vale do timing e do caráter homenageador da incorporação dessas referências no som, que não estão puramente atreladas a uma tendência momentânea e efêmera, estando presentes ao longo de todo o projeto. Em específico, podemos apontar os diálogos entre a música de aespa e gêneros feito bubblegum bass e electropop, diretamente associados ao selo e cena musical PC Music, hoje abarcados no termo guarda-chuva hyperpop.
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| Capa do álbum. Fonte: KT GENIE MUSIC CORP. Disponível em: https://genie.co.kr/detail/albumInfo?axnm=87602777. Acesso em: 31 maio 2026. |
Seja no nome (que pode ser conectado a dos experimento em PRODUCT, de SOPHIE) à caracterização visual do cibernético e da revisão nostálgica, essa associação é bem-vinda por acontecer contextualmente em suas visões contemporâneas de vanguarda, que continuam soando como o futuro porque não conseguiram ser assimiladas e cansadas o suficiente pela mecânica comercial. Adicionalmente, a lapidação sofrida por movimentos de contracultura impedem que essas instalações sejam feitas como cópia ou simulacro, apenas referência. Diante disso, as outras criações do álbum soam menos elaboradas do que o single que o nomeia mesmo não sendo piores, e é isso que tramita o porquê de não dar um peso maior, negativo, à intenção recapituladora de seu som. Não é oferecida grandiosidade normalmente experienciadas nas elaborações mais encorpadas de um LP, em que os microcosmos apresentados pelos singles e EPs individuais são elevados por riscos experimentais maiores e mais intensos associados ao valor comercial do lançamento. Talvez essa interpretação seja ainda mais fortalecida pela escolha de anunciar uma participação especial na música título que é escondida no lançamento oficial.
É uma pena a versão com Becky G não ser uma espécie de remix formulada como algo diferente e complementar ao single publicado. Isso talvez ampliasse a vida cultural do álbum como um todo e demarcasse o propósito da escolha da artista. Embora a canção se sustente sem o feat., Becky é incorporada de forma muito espontânea na música e abriga com sua presença a conversação de ser parte da juventude global reverberada e referenciada pelo som do álbum. É sobretudo uma pena como reconstruções e mixagens tendem a ser vistas como objetos bônus no kpop, valendo-se exclusivamente do repertório de singles e versões estendidas, assumindo demérito existencial. LEMONADE (feat. Becky G), os acréscimos irrelevantes (instrumental, mais rápido, mais lento), ou a participação de Ty Dolla $ign no recheio do disco passam a significar um segundo plano de importância incapaz de conversar com a própria construção que a introduz, porque num grande geral, LEMONADE reflete o catálogo da empresa sem subir degraus suficientes para ser um momento estupefato aos seus ouvintes, melhor espaçado em tema e com escolhas melhor propositadas, por pouco não anestesiando o valor total da obra.
Quem sabe por isso o nome faça justiça à peça: de poucos ingredientes, sem nenhum exagero, a limonada não é o drinque mais ostentável do cardápio, porém é suficiente para matar a sede.
LEMONADE - The 2nd Album (2026) - aespa | SM Entertainmentprós.: sólido e competente, continua a leva de acertos individuais do aespa.
cons.: como um todo, não foi capaz de desenvolver as novidades e participações especiais, se entediando no próprio esmero.★★★☆☆ 3/5
👍👎
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