Anunciada por ideias megalomaníacas redefinidoras da forma como entendemos a indústria da música, pouco se é propriamente definido como realísticas visões inovadoras no discurso empreendedor de Soo-Man para representar a agência A2O Entertainment, que se sustenta sob seu histórico comercial que ala alguns dos nomes mais conhecidos e respeitados do kpop, longevos na transformação vertiginosa do mercado Leste Asiático por mais de três décadas. Marcas como Red Velvet, SHINee, BoA e Girls’ Generation, para além da humanidade de suas integrantes, persistem em atualizações efetivas da mídia contendo linguajar, imagem e adaptações que batizam parte do aprendizado comercial do kpop. Em grande parte, tal qual na discussão sobre o que seria o “som do kpop”, isso é feito sob a qualidade criativa de seus experimentos, o que não foge do mérito de Love Got Me Ooh, que constrói, sob a premissa de um tributo técnico, uma estrutura repetitiva preenchida por harmonias e micro-variações tonais (do instrumental e do suporte melódico) para valorizar a voz na produção. Feita de nomes muito interessantes já solidificados na indústria, a música tenta se atualizar à episteme geracional pelo formato: deixando de lado o padrão das rádios com seus necessários três e poucos minutos para elaborar cada seção, quando encurtada para a dinâmica das novas plataformas o que se tem é a sensação de terminar sem se resolver, mesmo que seja essa a perspectiva intencional da produção.
Demonstrando como a atual forma de experiência do pop mudou radicalmente a extensão das canções, a escolha de uma produção extremamente fiel ao R&B dançante dos anos 2000 deixa clara a esquisitice de uma estruturação linear com foco melódico diante das composições atuais que giram em torno de sequências rápidas de movimentos sonoros transformativos abarrotados de intervenções estilísticas e mixagens bruscas entre gêneros musicais. Isso fica ainda mais aparente na sequência do lead, a quase-gospel Rain On My Parade, que se estende para emocionar cada uma de suas construções, mesmo que, como muito esperado de baladas padronizadas, pouca glória há no desenvolvimento de seu instrumental. Dessa vez a beleza se concentra unicamente na melodia e isso é o bastante para fazê-la eficiente.
Enquanto a integridade estilística se faz deslocada pelo recorte, a definição vocal se sobressai à frente dos projetos que propõem leitura diferenciada da onda Zen-X. Na verdade, esse é um argumento para celebrar que ambas interpretações podem e devem coexistir, porque são formas muito distintas de desenvolver a música pop, com referências e necessidades estéticas próprias que em um período de normatização criativa (que entrega mesmas moldagens e signos artísticos) faz das singularidades técnicas o norte movimentador da discussão crítica, não necessariamente tornando-as bem-sucedidas ou receptivas pelo público ao requerer espaço-tempo para serem compreendidas, o que nem sempre é possibilitado na tendência vampírica e imediatista do mercado. Love Got Me Ooh faz um risco às minúcias por não parecer fugir tanto da norma quanto parece internamente se distanciar do estilo até então elaborado pelo grupo, porém conquista simpatia pela excelência de sua conjuntura, atinando pelo brilho de um som de maior clareza estética a expectativa pelo próximo lançamento.
Love Got Me Ooh (2026) - A2O MAY | A2O Entertainmentprós.: se a celebração do canto em um gênero dedicado a isso deixou de ser previsível para a nova-geração, seu resgate de forma compacta e verossímil enriquece a qualidade do lançamento.
cons.: apesar de manifestar ideias apoteóticas de futuro com roupagem do passado, o single não se fortalece em inovações.★★★☆☆ 3/5
👍👎
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