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domingo, 26 de julho de 2026

Flert3 é paquera sonora sem firmar compromisso

Composição de estilo surrealista feita em azuis, amarelos e castanhos pálidos com os rostos das irmãs do trio de música pop Mariasss. A imagem evoca o estilo de ilustrações do jogo Dark Souls.
   
Num chamego desengonçado sob o eterno ciclo do sofrimento manifestado por músicas de ringtone vindas de 2003, as Mariasss vêm nos punir com a excelentemente produzida (e ainda assim de questionável caráter romântico) Flert3, em que encontramos um single polido à artificialidade dos sons do momento que se esquece do longo histórico de inventividade musical que carrega em seu país.

    Com uma produção despretensiosa que talvez seja melhor apreciada por um estrangeiro olhando para o Brasil ou um brasileiro que procura na própria terra o plástico moldado lá fora, Flert3 não envolve seu ouvinte em profundidades dos gêneros que toca. Embora não seja exigente de que a produção do Brasil carregue veias brasileiras, é um tanto ousada a escolha de ritmos que tiveram vivências muito únicas exploradas no país com conversas a expressões políticas, sonoras e tecnológicas locais que não foram transferidas para a construção da canção. Enquanto essa é uma análise um tanto amarga, isso não retira o quão bem-feita é a composição da música, que por si só se traduz com a jovialidade em sua despersonalização – representando a todos ao não representar nada –, porém eleva o dessabor por ter algo bem estruturado que não ousa investir no repertório elegido, em que há no 2-step, DnB, garage… irradiações brasileiras (seja em gêneros próprios como o sambass, leituras domésticas do liquid DnB ou referências muito fortes pertencentes à história do pop eletrônico brasileiro) que são amortizadas por uma visão pasteurizada de som, em que até mesmo o funk mandelão na música soa sem vida, entrando e saindo da composição como uma porção destacável incapaz de se comunicar com as outras seções.


    Tendo em mãos ritmos tão experimentais e adaptáveis, a monotonia é feita por vias da lapidação excessiva de certo padrão televisivo neutro, o que de certa forma lembra no projeto certos nomes rebuscados do pop brasileiro como Rouge e SNZ, podendo ser visto positivamente para além do sucesso desses grupos por reverberarem na história em qualidade técnica. Para um início de carreira é incrível a assepsia do pacote, mas faltam nutrientes para além da visualidade e do ouvido atento à voga sonora para solidificar às Mariasss uma estética pertinentemente particular.

Flert3 (2026) - Mariasss | Seta Reta Music
prós.: o belo e casual sem grandes aventuras num som muito bem executado.
cons.: um single de alta comercialidade que carece de alma e subsiste por pura competência.
★★☆☆☆ 2/5
👎

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