G02MP: A multiplicidade de línguas, ritmos e colaborações faz de LOST IN LUST um álbum encontrado na sua proposta de abrasileirar o pop mundial
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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A multiplicidade de línguas, ritmos e colaborações faz de LOST IN LUST um álbum encontrado na sua proposta de abrasileirar o pop mundial

Pequena colagem digital feita para ilustrar a crítica do álbum LOST IN LUST, de Pabllo Vittar. Confeccionado a partir de cenas promocionais para as músicas do álbum, com fotografias da sessão de fotos e da coreografia de BODY TYPE, a artista aparece deslocada à direita da cena, posando de óculos escuros sobre fundo preto arroxeado. No topo, como um vulto, sua face aparece mesclada ao horizonte.
    Seguindo o ciclo fortuito de lançamentos de Pabllo Vittar em que o direcionamento internacional nada mais traja do que uma expansão linguística de sua já solidificada expressão, LOST IN LUST faz uma mistura honorável entre a tecnologia que constrói a música brasileira e sua cena musical paradigmática: a eletrônica. Não designado a um calendário específico como o EP Prazer, Mamãe Noel ou ao fenômeno da indústria local de produzir músicas que norteiem o som das festividades de início do ano, o álbum troca a validade temporal pelo argumento espacial da boate, implicando longevidade sem defasar a experiência de seu som ao contexto cultural do país.

    Sua internacionalização não se difere de experimentos passados da trajetória da artista, que há algum tempo desenvolve extensões interativas entre as possibilidades pop brasileiras de adaptação diplomática (com colaborações linguísticas, filosóficas e artísticas) sem se privar de singularidade ou nacionalismo. A resistência pública a esses projetos estrangeirados tende a vir da preocupação da descaracterização do país dentro de ritmos e nuances não figurativos ao imaginário cultural ufanista, embora na prática o viés internacional não seja capaz de diminuir ou fragilizar a identidade de Vittar, que impera por simbologias da arte pátria assim como à frente de sua voz e cadência únicas. A partir disso, LOST IN LUST conforma a excelência tecnológica, estética e formal de gêneros musicais brasileiros (como o funk, brega e forró), geralmente constritos a uma percepção simplista introduzida ao léxico sociopolítico, em coordenações pop abrangentes diretamente relevantes e relacionáveis à cena eletrônica.

Capa do sétimo álbum da drag queen brasileira Pabllo Vittar. Por uma composição minimalista e imponente a artista aparece tomando toda a proporção da capa, destacando-se com roupas brancas (um top simples e saia de renda acinturada por um corset) e acessórios (presilhas na cabeça e um boá) que se assemelham a asas de anjo, feitas com penas, tecidos finos e fios cintilantes. Para a cena, Pabllo posa de olhos semicerrados com o corpo inclinado à esquerda da composição e sua perna esquerda levantada e dobrada. Nesta posição é possível ver que ela veste salto e polainas brancas. O fundo é preto, sem detalhes, mesclando aos seus cabelos que emolduram seu rosto.
Capa do álbum. Fonte: ML Genius Holdings, LLC. Disponível em: https://genius.com/albums/Pabllo-vittar/Lost-in-lust. Acesso em: 02 out. 2026.

    É um álbum de duração minúscula que não traz a isso incômodo, porque é completo em suas proposições e excepcional em sua edição, o que tende a ser o ponto fraco de grandes produções brasileiras que perdem seu pique e se enrolam em cansaço ao expressar ideias próximas demais sem bons recortes para o conforto do ouvinte. Sendo curto, flutuando entre tempos, ritmos e ideias, nada soa redundante ou repetitivo através de dinâmicas palatáveis que são funcionais ao desenvolvimento da memória sobre as canções e ao destaque às colocações melódicas emotivas e técnicas da cantora, principalmente diante das participações musicais que não se desviam do fluxo temático do lançamento e se fazem complementares à voz e estilo de Pabllo. Mesmo as mudanças bruscas ou a defasagem instrumental são permissíveis e integralmente coesivas durante a obra, ao passo que, mostrando uma necessidade do trabalho ser compreendido e encarado com totalidade, determina a dificuldade da tradução isolada necessária para sua promoção, perdendo-se méritos e nuances das músicas quando separadas em singles ou apresentações que guiam o espectador ao restante do álbum. À ironia da análise, uma possibilidade de correção dessa deficiência publicitária está na inspiração a circuitos fonográficos sólidos estrangeiros como o mercado japonês, em que os singles tendem a receber roupagem própria para subsistirem independentemente e revistos em novas mixagens na inclusão final.

    Narrando um estrelato enamorado pela luxúria de outros estrelatos, Pabllo Vittar constrói uma fantasia global em sua brasilidade evidente de confecções vibrantes que não intendem reinventar ou sobrescrever gêneros, mas participar de suas colocações estéticas, dialéticas e, por que não, políticas. LOST IN LUST é um trabalho amplamente pop que conversa com unidades estilísticas contemporâneas e é estruturado de maneira a ter, com seus refrões envolventes de referências pertinentes à vivência da artista e ao inconsciente coletivo, acesso facilitado pensado e expresso em um álbum breve e completo que deve ser apreciado por inteiro.

LOST IN LUST (2026) - Pabllo Vittar | MTDRS
prós.: LOST IN LUST é uma decisão coesivamente afivelada e autorialmente efetiva na discografia da drag queen.
cons.: enquanto o álbum é um segmento muito lógico na carreira de Pabllo Vittar, suas músicas, cujas vantagens são abrilhantadas contextualmente, têm dificuldade de se pronunciarem individualmente.

Veja mais: Pabllo Vittar, brpop, electropop, MTDRS.

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