A manobra apressada de legitimar o debut japonês do aespa a pouco mais de um mês da publicação do segundo álbum coreano expõe a estratégia parca de tratamento da SM Entertainment às novas gerações do kpop: com discografias muito esparsas ou mal espaçadas, sem grandes dinâmicas promocionais, a coerência estética dá lugar a uma alimentação forçada de lançamentos em que o volume tem maior mérito que sua vitalidade. Embalado em um EP de beijocas despretensiosas, KISS N TELL diz ao público ter um segredinho para contar… Será que isso trará algo suculento para sua discografia?
O transporte de um grupo coreano para o território japonês é dado sob regras muito específicas, em que, além do cuidado de se propor cenário audiovisual relativamente novo e internamente coesivo, são feitas propositais brechas para avaliar o retorno de mercado. Num grande teste de águas pautado principalmente pela fisicalidade comercial japonesa, músicas de sucesso no Japão tendem a regressar traduzidas à Coreia do Sul, assim como produções não exclusivas (isto é: que não foram selecionadas em outros projetos da agência) são postas à prova com a premissa desse ser um novo início para o grupo. O grande problema dessa costura de retalhos está na falta de comprometimento artístico que desvaloriza o produto à sensação de sê-lo genérico por imediatamente evocar lembranças específicas a outros artistas para além dos gêneros escolhidos. KISS N TELL acaba sofrendo dessa maquinação não em respeito à qualidade das músicas, mas de todo o corpo da obra ser preenchido por ideias sem autoridade ou assinatura, assimilado majoritariamente pela linguagem com uma inexpressividade geral que o deixa atingir outros países simultaneamente sem fazer diferença para o som. Apesar disso, o EP se engrandece nos pequenos brilhos que revelam pepitas de ouro em meio ao barro, havendo um charme muito interessante nos detalhes da produção por escolhas positivamente ousadas de desenho de som. São nessas minúcias que consegue ser lida a expansão da marca aespa, com explorações da linha do baixo e timbre influenciadas pelo pop eletrônico de ritmos como o chiptune, garage e electro house que dialogam com a premissa futurista do grupo junto ao estereótipo cultural-tecnológico do Japão.
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| Capa do EP |
Mesmo que a visualidade do início da primeira década dos anos dois mil seja anterior ao estilo bloghouse referido nas músicas, KISS N TELL se faz permissível por se situar à moda japonesa particularmente dissociada por tendências capazes de coexistirem na cena urbana sem competição ou necessidade de autenticação temporal. Longe de ser visto como uma extensão estética do histórico coreano de aespa, a estreia no mercado japonês recebe direção criativa neutralizada, próxima de uma experiência econômica trajada de EP musical, com vivência muito limitada para além do prazer da novidade instantânea de um lançamento sem se preocupar em apresentar as integrantes ou a narrativa por trás do nome. Tudo isso já foi sedimentado anteriormente, e o propósito de KISS N TELL é meramente fincar a bandeira para marcar território.
KISS N TELL (2026) - aespa | WARNER MUSIC JAPAN INCprós.: diversão inofensiva que não entra em intimidades, com boas ideias que se esmorecem até sumirem ao fim do EP.
cons.: KISS N TELL não consegue representar quem é e o que representa aespa como grupo, persistindo em suas microscopicamente arrojadas ideias de som.★★★☆☆ 3/5
👍👎

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