Submetendo o ouvinte exclusivamente ao seu papel espectador em Music, Fashion, Film, Charli xcx se despede da experiência parassocialmente interativa de BRAT para dar espaço ao, um tanto inesperado, espetáculo melancolicamente pós-irônico de rock eletrônico. Com uma estética sóbria que não deixa de valorizar o formato, clareza e êxtase da música pop, a artista entraja a fragilidade do íntimo no impenetrável empirismo da observação artística para refletir, à revelia singular de sua obra, a presença tecnológica que constrói o audiovisual.
Em visões muito inventivas de explorar a arte, Charli xcx mostra nos seus trabalhos constante transformação, nunca de forma descaracterizada ou inautêntica, com a atenção ao feitio expressa em sua perceptibilidade, compreendendo o lado de fora da casa, do país, das vias de existência descentralizadas em seus dispositivos e constantemente retornada à artista pela extensão da sua experiência. Seja em uma página específica do Instagram, na compra do formato digital ou com o vinil em mãos, a recepção do álbum é individualmente restrita e distanciada por uma revisão do se fazer parte do processo coletivo artístico, em que aqui, a interpretação da arte é homenageadora às figuras monolíticas que ilustram, na capa do disco, as áreas que seu título abrange, entregues num cenário isento de todos estes por uma sombra que é, na composição, olho diretor, voz e assinatura, mas não a imagem que a ala.
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| Capa do álbum |
No rock carimbado por sons de fotocopiadora e harmonias desafinadas, o ouvinte é constantemente desestabilizado diante de letras intensamente honestas e pessoais, o que só pode ser executado, mesmo na casualidade ficcional, pela inacessibilidade advinda do isolamento reflexivo do público sobre a obra. Referencialmente, essa tradução se assemelha às investidas experimentais pós-punk do grupo Sonic Youth, principalmente as atuais autorreferenciais e pós-irônicas criações de Kim Gordon que politizam a sensibilidade da rebeldia na dilatação dos limites sonoros que as tornam punk. Experimentações do rock, eletrônica, digital e acústica são incorporadas à pessoalidade numa ampliação do modo de ver e vivenciar o mundo ainda que constrito em uma referência carnal e urbana. Essa leitura pode ser complementada pela concatenação proposta por Grant Kester no artigo Colaborações, arte e subculturas (2006) para distinguir a obra interativa da vigente teoria da arte, em que Music, Fashion, Film se comporta mais próxima da nossa compreensão da produção museal, segura e inatingível em um cubo branco. Segundo o autor, o “artista nunca abre mão de uma posição de comando semântico, e a participação do observador é basicamente hermenêutica. […][E]ste não pode exercitar efeito substantivo ou real sobre a forma e estrutura do trabalho, que permanece a expressão singular do consciente autoral do artista.” (Kester, 2006, p. 11).
Charli xcx invoca uma versão metalinguisticamente depreciativa e questionadora do espaço criativo, de certa forma relacionada à falsa impressão de participação no momento BRAT concretizado, justamente nesse nome, em The Moment. Enquanto é necessário que a crítica saiba individualizar o corpo artístico, é um tanto ingênua a recusa analítica do contexto construtor da discografia, em que cada criação é grânulo de um mesmo rizoma social, tecnológico, filosófico… com as mutações sendo partes naturais fidedignas dessas expansões. Toda a carreira conversa entre si e a decepção à guinada do electropop para o estilo pós-punk é insignificante quando as letras, identidade, formato de produção e visualidade são perfeitamente consequenciais, evolutivas e causais entre projetos. Music, Fashion, Film não é indistinto às colocações românticas e sombrias de True Romance ou Charli, que dialogam à presente influência gótica da trilha musical Wuthering Heights, todos pautados sob uma premissa também técnica de imaginar a música para variadas plataformas e colaborações, em que a composição se torna parte de um diário coletivo como um blog, ouvível na facilidade e inventividade requerentes para ser pop e deslocada na exclusividade do que a faz artista.
Music, Fashion, Film (2026) - Charli xcx | Charli XCX Inc., sob licença de Atlantic Recording Corporationprós.: aos cliques e bipes alternativos, Charli transporta o gigantesco léxico material do pop para o electrorock de vanguarda num curto e afiado ensaio musical.
cons.: a descentralização da experiência do ouvinte, embora notável em suas possibilidades de irradiação da obra, fragmenta o acesso como um todo.
★★★★★ 5/5
👍

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